Daesh: origem, significado e expansão

 

Manifestação de jovens, vítimas da violencia do Daesh e do estado turco, o estado islamico e o terrorismo pelas armas na Siria; ruas de Paris e a Torre Eiffel

Rua de Paris: Manifestação de jovens, vítimas da violência do Daesh e do estado turco

O tema do terrorismo não é fácil de abordar, uma vez que, para além de ser muito complexo, presta-se a muitas interpretações e leituras diversificadas. Acredito que, tal como eu, também tu te encontraste com muitas perguntas nas últimas semanas, em resultado não só dos ataques ocorridos no centro de Paris e de Bamako (Mali) mas talvez até, mais ainda, em resultado das ‘leituras’ e conclusões tiradas pelos media, a partir daquelas tragédias. De facto, como eu, também tu podes verificar a discrepância entre o silêncio e a tentativa da gente comum de enfrentar com dignidade tais dramas, por um lado e, por outro, a insistência e divulgação espalhafatosa levada a cabo pelos media, durante praticamente duas semanas.

Por outro lado, tanto os políticos, como os responsáveis da cultura e da sociedade parecem ter dificuldade em aprender as lições da história, beneficiando assim da experiência de outros que atravessaram dramas terríveis. Tenho em mente, de maneira muito especial os dois maiores conflitos bélicos do século XX e também algumas das instituições que têm aí as suas raízes, como é o caso da ONU e da NATO.

Para além destes aspectos históricos, se queremos buscar uma visão mais global deste tipo de tragédias, convém-nos também, em nome da justiça e da verdade, tentar ver o fenómeno do terrorismo, não somente a partir dos seus efeitos (violência e morte) mas também considerando as suas origens e a forma como se mantém (apoios, financiamento, etc…).

 

El tema del terrorismo no es para nada asunto fácil de tratar, ya que, además de ser muy complejo, se presta a muy distintas interpretaciones y lecturas diversificadas. Creo que, igual que yo, tu también te has hecho muchas preguntas en las últimas semanas, no solamente como resultado de los ataques ocorridos en el centro de Paris y de Bamako (Mali) sino, más aún, como resultado de las ‘lecturas’ y conclusiones sacadas por los media, partiendo de aquellos sucesos trágicos. De hecho, tal como yo, también tu puedes verificar la contradicción entre el silencio y el intento de la gente común de vivir con dignidad aquellos dramas, por un lado e, por otro, la insistencia y difusión desproporcionada hecha por los media, durante casi dos semanas.

Por otro lado, los políticos así como los responsables de la cultura y de la sociedad parecen tener dificultad en aprender las lecciones de la história, aprovechando la experiencia de otros que vivieran dramas terribles. Pienso muy especialmente en los dos mayores conflictos armados del siglo XX y también algunas instituciones que ahí tienen sus raíces, como es el caso de la ONU y de la NATO.

Además de estos aspectos históricos, si queremos buscar una visión más global de este tipo de tragédias, es necesario que nosotros, en nombre de la justicia y de la verdad, intentemos entender el fenómeno del terrorismo, no solamente partiendo de sus efectos (violencia y muerte) sino también considerando sus orígenes y la manera como siguen manteniéndose (apoyo, financiación, etc…).

 


n1Daesh: Estado Islâmico do Iraque e do Levante

Daesh: "Estado Islâmico do Iraque e do Levante" na Siria e sua respectiva violencia pelas armas contra crianças no deserto e no medio oriente

Bandeira do Daesh: o auto-proclamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante

Em Junho de 2014 Abu Bakr al-Baghdadi auto proclamou-se califa e deu assim origem ao Daesh, na linha dos grandes e históricos califados, dos quais o último foi o império otomano, que continuou vigente até 1923. Daesh não é mais do que o correspondente latino à sigla árabe que pode ser transliterada como segue: al-Dawla al-Islamiya al-Iraq al-Sham, que significa Estado Islâmico do Iraque e do Levante. Para além de ser uma sigla, a palavra ‘daesh’ significa também, em árabe, «um intolerante que impõe as suas ideias aos outros», o que não deixa de aplicar-se certeiramente e em especial a este grupo de jihadistas.

A designação não é indiferente. De facto, quando nos referimos ao estado islâmico, estamos a usar palavras da maior consideração a nivel internacional e diplomático, tanto no que se refere a ‘estado’ como também no qualificativo ‘islâmico’. Nem um nem outro são convenientes e, ainda que, o acrónimo Daesh se refira de facto ao mesmo conteúdo, acaba por se fazer menção de um outro significado e uma alusão directa ao sentido pejorativo, enquanto intolerantes e impositivos.

Ao atribuir estes qualificativos, surge-me uma questão, acerca da autoridade, ou inteireza moral, de quem faz estas atribuições e classificações… e penso agora muito concretamente em mim próprio, em ti e, mais ainda em Francois Hollande, Barak Obama, David Cameron e muitos mais, que têm certamente muito de intolerância e de imposição, para não falar de violência nem de terrorismo!

 

n2Origem do Daesh

Os dois responsáveis directos pela guerra do Iraque à esquerda: Tony Blair e George Bush; luta contra o terrorismo; armas e violência; queda de Saddam Hussein

Os dois responsáveis directos pela guerra do Iraque à esquerda: Tony Blair e George Bush

Mais do que escrever os pormenores de como surgiu e se foi fortificando o Daesh, penso que para ti poderá ter maior interesse tentar identificar causas próximas e distantes que expliquem o surgimento e o crescimento vertiginoso deste movimento/grupo armado.

2.1 Causas próximas

Aqui entro no campo da opinião e, por isso mesmo, poderás naturalmente discordar. Para mim, a causa mais imediata para o surgimento do Daesh diz respeito à intervenção armada conjunta dos EUA e da Inglaterra na guerra do Iraque, onde George Bush e Tony Blair se coligaram. É por demais evidente que as motivações evocadas para esta guerra, foram completamente desmentidas, acabando por verificar-se com toda a segurança que as supostas armas químicas de destruição maciça na posse do ‘ditador’ Saddam Hussein não eram mais do que ‘factos’ ou ‘notícias’ forjadas!

F15 e guerra do Iraque/: fabrico e comércio de armamento pesado na luta contra o terrorismo; armas e violência;

Representação de caças F15 no deserto, as armas pesadas usadas durante a guerra do Iraque

Outra razão foi a intervenção militar, liderada pelos EUA, na guerra do golfo, ou “Tempestade no Deserto” em Janeiro de 1991, de acordo com a resolução 678 do conselho de segurança da ONU, cujo objectivo era a libertação do Kuwait que tinha sido anexado pelo Iraque, em Agosto de 1990.

2.2 Causas distantes

Tendo em consideração a importância e a repercussão do Daesh (especialmente no mundo muçulmano), penso que a primeira causa distante é de facto simultaneamente religiosa e política. Ao remontar ao Corão, por um lado, e ao proclamar a implantação de um kalifado, por outro, somos levados a pensar no conceito da arábia unida, que foi parte da propaganda feita em 1916 (durante a primeira guerra mundial), com o fim de facilitar a divisão e partilha do médio oriente, de acordo com o acordo secreto de Sykes-Picot. Esta divisão arbitrária do decadente império otomano em pequenos países, respondendo apenas a interesses ocidentais, mas com a promessa falsa da criação da arábia unida, parece-me uma das maiores razões para o descontentamento e subsequente reacção, que conduziu à proclamação do kalifado por Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Daesh.

Outra razão, que não se prende somente com este caso, mas que mais geralmente gera reacções, críticas e levantamentos populares e/ou armados é a injustiça verificada na diferença da distribuição dos bens e dos recursos.

Estas e outras causas distantes poderão ser vistas com maior detalhe no meu post sobre a crise dos refugiados na Europa, incluindo o video que não podes perder, sob pena de não chegares a perceber o que acontece no médio oriente, há já 100 anos e continua hoje com o mesmo dramatismo.

 

n3Expansão do Daesh

Kalifado, ou Estado Islâmico/Daesh no mundo: construção sem olhar a meios, violência, armas, terror, morte; na Síria, Iraque, Iemen, etc

Kalifado, ou Estado Islâmico/Daesh no mundo

Parece óbvio que o Daesh veio ao encontro da insatisfação sobretudo de duas situações concretas muito graves: por um lado o longo e complexo caos deixado após a deposição de Saddam Hussein e a prolongada estadia das tropas norte americanas, até à sua retirada no final de 2011 e, por outro, à política de repressão e de terror, levada a cabo na Síria, por Bashar-al-Assad, sobretudo após a primavera árabe. Assim sendo, os guerrilheiros inicialmente concentrados no Iraque, em contínua resistência, primeiro aos norte americanos e, em seguida, ao exército iraquiano, foram-se organizando e conquistando posições. Depois vieram a aproveitar-se também da enorme desordem que grassava na Síria, conquistando territórios e cidades tanto junto à fronteira, como no norte. O que não parece estar muito claro são os apoios, e os acordos com as diversas facções da oposição síria: exército livre da Síria; frente islâmica; e al-Nusra, que são os mais radicais, juntamente con o Daesh.

 

n4Questões em aberto

Para além da série de factos e reflexões feitas até este ponto, parece-me pertinente continuar a colocar alguns pontos em discussão, sobretudo devido ao facto de parecerem, até mesmo, assuntos tabú. Refiro-me a assuntos de natureza económica e, portanto, às vantagens e interesses que sempre se sobrepõem a quaisquer outros, deixando-os por isso na sombra ou relegando-os para áreas marginais.

4.1 Fornecedores de armas e munições ao Daesh

F16 made in USA, o primeiro fabricante mundial de armas

F16 feito nos Estados Unidos, o primeiro fabricante mundial de armas

Por diversas, embora muito raras vezes, se tem tocado no assunto do fabrico e comércio de armas. No entanto, sabe-se que, no período de 2010 a 2014, os principais fabricantes/exportadores de armamento foram os EEUU, com 31% do total mundial; a Rússia, com 27%; seguidos da Alemanha, China, França, Reino Unido, com 5%, cada um.

Nos Estados Unidos por diversas vezes veio à tona, na cena política, a questão de fornecer ou não armas aos rebeldes na Síria. Obama parece ter resistido durante muito tempo a tal decisão, mas em 2014 acabou por pedir fundos ao congresso para ‘treino militar’ o que não pôde ser feito sem o envio de todo o tipo de armamento, incluindo o pesado!

4.2 Clientes do petróleo explorado pelo Daesh

O petróleo é a principal receita do Daesh, mesmo após os bombardeamentos de Novembro na Siria e no Iraque, como reacção aos ataques de Paris e Bamako no Mali

O petróleo continua a ser a principal receita do Daesh, mesmo após os bombardeamentos de Novembro

Apesar de haver quem diga (Jung Hoon Lee) que o Daesh não é nem nunca foi uma ameaça séria, basta olharmos para a extensão da crise dos refugiados, que supõe um enorme drama que passa pelo elevado número de vítimas mortais e um número ainda maior de feridos. Por isso mesmo, o kalifado não pode nem deve de maneira nenhuma ser menosprezado.

A verdade é que a ascensão do estado islâmico se tornou possível graças aos abundantes proventos da exploração do petróleo, que muitos ocidentais, e não só, continuam a comprar a preços ‘chorudos’, porque muito longe de qualquer concorrência. Muito poucos compram directamente o petróleo ao Daesh, mas através de intermediários locais, o movimento continua a juntar todos os dias as receitas necessárias ao funcionamento da máquina da guerra e do terror. Após os bombardeamentos levados a cabo em Novembro último, pela Rússia e pela França, o Daesh ainda continua a ter receitas superiores a 1 milhão de dólares diários, porque anteriormente ultrapassavam os dois milhões por dia.

 

Conclusão

O Daesh não constitui nenhum fenómeno isolado, nem constitui uma surpresa, especialmente para as principais nações responsáveis pelo caos que encontramos há tanto tempo no médio oriente. Tal como outros grandes movimentos revolucionários de ontem e de hoje (Sendero luminoso, Al-Shabab, Farc, Hamas, …), tiveram a sua origem e desenvolvimento em situações concretas de instabilidade e insatisfação política, económica e social; o mesmo se passou e continua hoje no médio oriente, onde infelizmente o Daesh não é o único exemplo.

Por isso, parece claro que, sem vontade de enfrentar as  causas reais destes fenómenos, nunca se encontrarão soluções satisfatórias, nem pacíficas, e muito menos humanas… O uso e abuso dos motivos religiosos para explicar tantas guerras e conflitos, sejam eles regionais, nacionais ou internacionais, não ajuda nada a encontrar uma solução, nem conduz a caminhos de reconciliação.

Até quando nos continuarão a inundar de autêntico ruído os meios de comunicação social, em vez de nos esclarecerem sobre as verdadeiras causas do terrorismo e das guerras? Ou melhor, até quando continuaremos a tolerar o que eu chamo desinformação? Sim, porque tu e eu podemos de facto escolher o que decidimos ver e ouvir!…

Se te interessa este post, por favor, deixa o teu comentário, observações ou sugestões e, já agora, partilha-o e divulga-o nas redes sociais!😄 Obrigado e conta comigo especialmente para assuntos humanitários, religiosos, ambientais, etc. Paulo Martins

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