Europa e Refugiados da Síria: história e futuro da crise

 

Crianças sírias na escola; campo de refugiados em Za’atri, Mafraq, Jordânia syria future europa europe school travel sea familia mar education siria estado islamico

Crianças sírias na escola; campo de refugiados em Za’atri, Mafraq, Jordânia

 

Porque é que centenas de milhares de refugiados continuam a deixar as suas terras e arriscam tudo, até mesmo a própria vida, para poderem chegar à Europa? Porque é que as guerras no médio oriente e na África continuam, algumas delas durante várias décadas, sem solução?

Tu e eu continuamos a perguntar-nos quem são os responsáveis pelos dramas intermináveis da Síria, da África, da América Latina e do mar Mediterrâneo… Hoje, juntamente contigo, quero pensar um pouco neste assunto dos refugiados da Síria e não só, de modo a procurar alguma luz que nos oriente, nesta encruzilhada que estamos a viver …

¿Por qué cientos de miles de refugiados siguen abandonando sus tierras, arriesgándolo todo, incluso la vida misma, con el fin de llegar a Europa? ¿Por qué las guerras en el Medio Oriente y África siguen, algunas de ellas durante décadas, sin solución?

Tú y yo continuamos preguntándonos quienes son los responsables de los dramas interminables de Siria, África, América Latina y del Mar Mediterráneo … Hoy, junto con vosotros, quiero reflexionar un poco sobre los refugiados sirios y de otras partes, intentando buscar un poco de luz para guiarnos en esta encrucijada que estamos viviendo …

 

1. História

Um olhar atento para a história, pode certamente ajudar-nos a entender o presente. E uma questão complexa e de difícil solução, como é o caso da crise dos refugiados da Síria, merece uma atenção especial, por parte da Europa e dos europeus, particularmente.

 

1.1- Grandes impérios

Na idade média chegaram da Ásia central os turcos, que fundaram o Império Otomano, que durou até à primeira guerra mundial

O Imperio Otomano durou mais de 600 anos

Ninguém se admira se dissermos que o médio oriente foi o berço da civilização que hoje se designa como ocidental. Basta recordar a Suméria e a Mesopotâmia. Sucessivamente, a mesma região foi sendo dominada por diferentes povos e culturas, entrando por isso a fazer parte de diferentes impérios: medo e/ou persa, grego, romano, islâmico e, a partir da idade média, o império otomano. Este último controlou o médio oriente durante mais de seiscentos anos e só no início do século XX é que a Europa veio a tomar parte activa naquela área geográfica, tendo em vista, indiscutivelmente, as enormes reservas de petróleo aí presentes.
Como se isto fosse pouco, a sua importância e centralidade é também fortemente marcada por estar na origem das três grandes religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo.

 

1.2- I Guerra Mundial

Foi assim que, durante a primeira guerra mundial, a França e a Inglaterra, fizeram um acordo secreto (acordo de Sykes-Picot, 1916) para dividir a região numa série de pequenos países. Conseguiram o apoio dos povos residentes, prometendo-lhes o que eles designaram “Grande arábia”, mas que nunca passou de um embuste. Pelo contrário, os pequenos países são apenas formas de dividir e controlar, com o único objectivo latente de explorar as reservas petrolíferas.

 

1.3- II Guerra Mundial

Segunda guerra mundial: Dia D; desembarque na Normandia. Europa, Europe, mar, war, borders, death, border, different, fear

Segunda guerra mundial: Dia D; desembarque na Normandia

No final da segunda guerra mundial os europeus abandonam a região, com a particularidade de terem ‘sido corridos’ da Síria. Porém, antes de saírem, os ingleses fundam un novo país – Israel, que nunca foi reconhecido pelos seus vizinhos, os quais imediatamente começam a atacá-lo. A região tornou-se então numa autêntica bomba relógio que, até hoje, nunca deixou de produzir vítimas!
A Síria continua muito instável. Surge então o partido BAAZ, uma formação política que une o socialismo com o sonho da grande nação árabe. A Síria une-se com o Egipto e outros países também querem unir-se, pois nunca esqueceram o sonho da ‘Grande Arábia’.
Os governantes sírios pertencem à minoria chiíta. Mas a maioria sunita (70% da população) comandada pela irmandade muçulmana (extremistas islâmicos) começa uma revolta em Hamã. Al-Assad esmaga a revolta, recorrendo ao exército, matando e prendendo muita gente. No ano 2000 morre o presidente e sucede-lhe o filho, com o mesmo nome, que continua a recorrer à força e à prisão indiscriminada para controlar a oposição.
George Bush inclui a Síria no chamado ‘Eixo do Mal’, isolando-a. Em 2011 começa a ‘primavera árabe’ que se estende a praticamente todo o mundo muçulmano. Quando chega à Síria, Al-Assad recorre ao exército para controlar os protestos. Mas a escalada de violência acaba por se converter em guerra civil.
Hoje, o governo de Al-Assad (chiíta) conta com o apoio da Rússia, do Irão e da China. Por outro lado a oposição e islamistas radicais (sunitas e irmandade muçulmana) contam com o apoio dos EEUU, Turquia, França, Grã-Bretanha e Arábia Saudita.

 

1.4- Análise – Opinião

A Síria é uma zona estratégica que todos querem. Agudiza o problema o facto de este país existir há menos de cem anos e ter governo próprio há apenas cinquenta! Além disso, as suas fronteiras foram impostas com base em interesses externos (ocidente). Estas observações, quando somadas aos acontecimentos das últimas décadas, demonstram como uma área geográfica tão central não pode ser deixada como presa… como um simples objecto de interesses de uns quantos déspotas… Após tantos anos de guerra, exploração e de desespero, não é de estranhar que surjam movimentos, como o ISIS, que se alimentam de uma mistura explosiva de ingredientes: o desespero, o sentimento de opressão (sunitas), a identidade árabe, a visão do ocidente como invasor e, inclusivamente, a mitologia de antigos impérios.

Como aprofundamento, proponho-te o resumo apresentado en vídeo, porque pode ajudar-te a esclarecer o passado e o presente do médio oriente e do mundo ocidental, como o conhecemos hoje.

 

2. Invasão da Europa em curso?!

Verificam-se receios por parte de alguns de que esteja em curso um processo agendado de invasão da Europa. Têm fundamento tais medos? Fixemo-nos nos números, partindo dos dados de UNHCR: a guerra civil síria gerou 4,18 milhões de refugiados (à data da publicação deste post), acrescidos de 7,6 milhões de deslocados internos. Dos mais de 4 milhões de refugiados, somente os 4 países vizinhos albergam mais de 3,5 milhões, enquanto a União Europeia recebeu, até Agosto de 2015, 420 mil refugiados sírios. Esta cifra representa 0,084% da população europeia (cerca de 500 milhões no seu conjunto) e é irrisória, comparada com os 20% que representam os 1,147 milhões de refugiados sírios que o Líbano já acolheu! Aproveitando de todas as vantagens de uma infografia, aqui te apresento uma imagem elucidativa destes números.

 

Infografia: Refugiados da Síria no Mundo e na Europa

 

3. Escalada de Violência

Há momentos pensámos um pouco no ‘barril de pólvora’ malévolamente preparado no médio oriente, pelos países ocidentais ni início do século XX. O que parece nunca ter estado nos seus planos nem previsões é a escalada de violência que se tem verificado, especialmente após a proclamação do assim chamado estado islâmico (ISIS), a 29 de Junho de 2014 (ver infografia). Uma análise significativa deste fenómeno foi feita por Leonardo Boff, no seu artigo: Um enigma humano: a violência pela violência do Estado Islâmico, de 13 de Junho de 2015.
Parece evidente que uma grande parte das atrocidades levadas a cabo pelo estado islâmico afunda as suas raízes particularmente nos últimos cem anos da história da região (cf. 1. História).

Principais países envolvidos no acolhimento dos refugiados; Os responsáveis pelos dramas intermináveis da Síria, da África, da América Latina e do mar Mediterrâneo... Hoje quero pensar um pouco neste assunto dos refugiados da Síria (Siria e Syria)

Infografia graciosamente cedida pela Além_mar

 

4. Pare, escute, e olhe! …aproveite para pensar

Uma crise humanitária de semelhantes dimensões não tem explicações simples nem imediatas. Vivemos num mundo onde o acesso à informação praticamente se generalizou. Mas, por outro lado, nem sempre se verifica a conformidade, a verdade, nem estamos acostumados a verifica a informação, bem como a sua fonte!
Especialmente nas redes sociais pode verificar-se (já aconteceu) a difusão fácil e rápida de mentiras, ou boatos, destinados a confundir e a desinformar. Temos todos que estar alerta, para não nos deixarmos enrolar. Cabe aqui recordar uma série de perguntas, que não te vão surpreender:

  • De onde vem a informação e quem a produziu?
  • Que objectivos pode ter o autor com a sua divulgação?
  • Os dados divulgados são verdadeiros? Posso confirmar a sua veracidade? Fazem sentido?
  • Não encerram contradições? As datas batem certo?
  • Não encerram contradições? As datas batem certo?
  • Posso confirmar esta informação com uma fonte diferente, para a verificar?

Se nos dispomos a seguir este procedimento, já iniciámos um processo extra de aprofundamento do tema e de reflexão que nos vai ajudar a perceber melhor a realidade no seu conjunto. Deste modo, depois de bem informados, podemos tirar as nossas próprias conclusões.
No caso dos refugiados sírios, ao procurarmos entender o que realmente se está a passar, deparamo-nos com um mundo complexo de factores que progressivamente levaram à situação que actualmente se vive e que parece concentrar-se na área do mar mediterrâneo, ainda que não se limite àquela região. De facto existem muitas outras situações igualmente graves no mundo de hoje, ainda que não tenham merecido (quase) nenhuma atenção mediática.

 

Conclusão

Bebé sírio de um mês dorme nos braços da mãe

Bebé sírio de um mês dorme nos braços da mãe

Como acabas de ver, uma tragédia destas dimensões não pode ser simplificada nem manipulada, de modo a continuar prisioneira dos interesses mesquinhos do sistema económico e político que lhe deu origem. Pelo contrário, é necessário informar-se muito bem, aprofundar a história e não só, para poder escapar às armadilhas das visões parciais, por um lado e das perspectivas tendenciosas e manipuladas, por outro.

Não toquei aqui nos temas do emprego, do subemprego, nem do trabalho precário. Mas pode deduzir-se o sistema chamado neo liberal (capitalista) como primeiro responsável pelo agravamento das condições de trabalho a nível global. No contexto desta crise humanitária, com a chegada de uma quantidade enorme de famílias inteiras, podemos intuir o interesse do ‘sistema’ em alimentar o contraste/conflito entre os recursos laborais europeus e os recursos em constante chegada, no contexto desta crise humanitária. A situação real de uns e de outros fica assim fragilizada e os únicos a tirar partido são as cúpulas do sistema, naturalmente…
Parece-te que este artigo pode ajudar a interpretar a enorme quantidade de informação que a todo o momento nos inunda? Que sugestões darias tu para melhor se poderem verificar as informações que nos chegam por todos os meios (TV, radio, redes sociais, jornais, …)? Encontras outras formas de aprofundar e de continuar a reflexão sobre temas tão urgentes como: a) O acolhimento dos refugiados? b) A máquina que produz tais ‘avalanches’?

 

🆙Se gostaste deste post, por favor, deixa o teu comentário com as tuas observações e sugestões e, já agora, podes partilhá-lo e divulgá-lo nas redes sociais!😄 Obrigado e conta comigo para assuntos humanitários, religiosos, ambientais, etc. Paulo Martins

Anúncios